Chapeuzinho Vermelho, dos Irmãos Grimm

Chapeuzinho Vermelho é, sem dúvidas, um dos contos mais conhecidos no mundo inteiro. Toda criança sabe contar pelo menos uma versão da história da menininha que é enganada pelo Lobo Mau porque desobedeceu sua mãe.

Chapeuzinho Vermelho não ganhou uma grande adaptação da Disney como Cinderela ou Branca de Neve ganharam, mas um fato curioso é que a primeira animação de Walt Disney foi justamente sobre essa história, em 1922 (você pode vê-la aqui). Entretanto, essa versão antiga da Disney é bem diferente da que eu vou contar aqui, escrita pelos Irmãos Grimm.

Espero que gostem!

Ilustração de Arthur Rackham

Ilustração de Arthur Rackham

“Era uma vez uma menininha meiga e querida por todos que a conheciam, mas era especialmente querida por sua avó, que não cansava de agradá-la. Certa vez a avó lhe deu uma capa com um capuz feita de veludo vermelho.

Assentou-lhe tão bem e a menina gostou tanto, que não queria usar outra roupa e por isso ganhou o apelido de Chapeuzinho Vermelho.

Um dia a mãe disse:

“Vem aqui, Chapeuzinho Vermelho, leve este bolo e esta garrafa de vinho à sua avó. Ela está fraca e doente e esses presentes lhe farão bem. Vá depressa, antes que o dia esquente, não se demore pelo caminho nem corra, para não cair e quebrar a garrafa e deixar sua avó sem vinho. Quando chegar, não esqueça de desejar: ‘Bom dia’, educadamente, sem ficar reparando em tudo”.

“Vou fazer tudo que me diz”, prometeu Chapeuzinho Vermelho à mãe.

Sua avó morava na floresta, a uma boa meia hora da aldeia. Quando a menina chegou à floresta, encontrou o lobo. Mas não sabia que ele era um animal malvado, por isso não teve um pingo de medo.

“Bom dia, Chapeuzinho Vermelho”, cumprimentou o lobo.

“Bom dia, lobo.”

“Aonde vai tão cedo, Chapeuzinho Vermelho?”

“À casa de minha avó.”

“Que está levando em sua cesta?”

“Bolo e vinho. Assamos o bolo ontem, por isso vou levá-lo para vovó. Ela precisa de alguma coisa para melhorar.

“Onde mora sua avó, Chapeuzinho?”

“A mais ou menos quinze minutos de caminhada. A casa dela fica à sombra de três grandes carvalhos, próxima a uma sebe de nogueiras que você deve conhecer”, respondeu Chapeuzinho Vermelho.

O lobo pensou: “Essa criaturinha será um bom petisco. Bem mais gostosa que a velha. Preciso ser esperto e abocanhar as duas.”

O animal acompanhou Chapeuzinho Vermelho por algum tempo, depois disse:

“Veja que bonitas flores, Chapeuzinho Vermelho. Por que não dá uma espiada à sua volta? Acho que você nem ouve os pássaros cantando, está séria como quem vai para a escola. Tudo é tão alegre aqui na floresta!”

Chapeuzinho Vermelho ergueu os olhos e, quando viu a luz do sol dançando entre as árvores e todas as flores vivamente coloridas, pensou: “Tenho certeza de que vovó ficaria satisfeita se eu lhe levasse um buquê de flores. Ainda é muito cedo; terei bastante tempo para apanhá-las.”

Saiu então da trilha e foi caminhando entre as árvores para colher as flores. Cada vez que colhia uma, sempre avistava outra ainda mais bonita um pouco adiante. Com isso ela foi se aprofundando na floresta.

Nesse meio-tempo, o lobo rumou direto para a casa da vovó e bateu na porta.

“Quem é?”

“Chapeuzinho Vermelho, que veio lhe trazer bolo e vinho. Abra a porta!”

“Empurre o trinco!”, gritou a velha. “Estou fraca demais para me levantar.”

O lobo empurrou o trinco e a porta imediatamente se abriu. Ele entrou depressa, se aproximou da cama sem dizer uma palavra e comeu a velha. Vestiu então sua camisola e a touca, se meteu na cama e fechou o cortinado.

Chapeuzinho Vermelho andou colhendo flores por todo lado até encher os braços e então tornou a lembrar da avó. Quando chegou à casa dela, ficou admirada de encontrar a porta aberta e, assim que entrou, o quarto e tudo o mais lhe pareceu muito estranho.

Ela se sentiu apreensiva, mas não sabia a razão. “Em geral gosto tanto de ver vovó.”, pensou. E então disse:

“Bom dia, vovó.” Mas não recebeu resposta.

Foi então até a cama e abriu o cortinado. A avó estava deitada, mas puxara a touca para cobrir o rosto e tinha uma aparência estranha.

Ilustração de Arthur Rackham

“Vovó, que orelhas grandes a senhora tem”, comentou.

“É para ouvi-la melhor, minha querida.”

“Vovó, que olhos grandes a senhora tem.”

“É para vê-la melhor, minha querida.”

“Mas, vovó, que dentes grandes a senhora tem.”

“É para comê-la melhor, minha querida.”

Mal acabara de dizer isso, o lobo pulou da cama e devorou a pobre Chapeuzinho Vermelho. Quando se deu por satisfeito, voltou para a cama e logo começou a roncar alto.

Um caçador passou pela casa e pensou: “Como a velha está roncando alto. Preciso ver se está acontecendo alguma coisa com ela.”

Ele entrou na casa, aproximou-se da cama e encontrou o lobo ferrado no sono.

“E não é que o encontro aqui, seu velho pecador!”, exclamou. “Faz bastante tempo que venho procurando você.”

E ergueu a espingarda para atirar, mas ocorreu-lhe que talvez o lobo tivesse comido a velha e que talvez ainda pudesse salvá-la. O caçador apanhou uma faca e começou a abrir a barriga do animal. No primeiro corte viu o pequeno capuz vermelho e, com mais alguns golpes, a menininha pulou fora e exclamou:

“Ah, que medo eu tive, estava tão escuro dentro do lobo!”. Em seguida a velha avó saiu, viva, mas mal conseguia respirar.

Chapeuzinho Vermelho trouxe umas pedras grandes com as quais ela e o caçador rechearam o lobo, de modo que, quando o animal acordou e tentou correr, as pedras o arrastaram para trás e ele caiu morto.

Todos ficaram bem satisfeitos. O caçador esfolou o lobo e levou a pele para casa. A avó comeu o bolo e bebeu o vinho que sua neta trouxera, e logo se sentiu mais forte. Chapeuzinho Vermelho pensou: “Quando minha mãe proibir, nunca mais vou sair passeando pela floresta enquanto eu viver.”

Se estiver interessado, confira também esse curta macabro que conta uma outra versão da Chapeuzinho Vermelho.

Alícia

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