Biancabella e a Cobra, de Giovanni Straparola: Parte I

Biancabella and the Snake é um conto da literatura italiana, de Giovanni Francesco Straparola, escrito na obra The Facetious Nights of Straparola. Existem muitas variações (muitas mesmo) desse conto, e dentre elas está uma bem conhecida, a The Girl Without Hands, conto dos Grimm. A história também me lembra um pouco As Fadas, do Perrault, que eu e a Alícia postamos aqui e aqui. A versão que irei postar é a que tem no livro Noites Agradáveis, com contos do Straparola selecionados e traduzidos por Renata Cordeiro. É um conto bem extenso, e vai ser, como alguns outros que nós já postamos, dividido (só que, dessa vez, em três posts). Tragam um pacotinho de balas, um suquinho e relaxem. (:

“Há muitíssimo tempo, reinava sobre Monferrat um marquês poderoso pela extensão das suasa terras e pelas suas riquezas, porém ele não tinha descendentes. Chamava-se Lamberico. Queria muito ter filhos, mas Deus lhe recusava essa graça. Certo dia, enquanto a marquesa passeava nos seus jardins, ocorreu que, tomada de sono, ela se deitou ao pé de uma árvore. Durante esse doce sono, uma pequena cobra se aproximou, deslizou sob as suas saias, penetrou pela via natural sem que ela sentisse o que quer que fosse, e, subindo com muita doçura, instalou-se em seu ventre

Pouco tempo depois, a marquesa, para grande alegria de toda a cidade, engravidou. Ao fim de nove meses, pôs no mundo uma menina que tinha no pescoço uma pequena cobra, três vezes enrolada em volta de si mesma. Ao ver isso, as mulheres que cuidaram da criança ficaram tão assutadas, mas a cobrinha se desenrolou sem lhes causar o menor mal e se foi para o jardim. Após lavarem a sua filhinha na água clara e a vestirem com roupa branca como a neve, pôde-se ver que entre a pele e a carne um lindo colar de ouro, finamente trabalhado, que transparecia como uma preciosa joia atrás de uma esguia parece de cristal. E dava-lhe tantas voltas no pescoço que a cobrinha acabou ali formando anéis. A menina, a quem chamaram Biancabella, por causa de sua beleza, manifestava, conforme ia crescendo, tantas virtudes e delicadeza, que parecia uma criatura não humana, e sim divina.

Já havia completado dez anos, quando notou, de um terraço, o jardim todo cheio de rosas e de outras lindas flores, e perguntou à sua ama que lugar era aquele que jamais vira. Foi-lhe respondido que era um jardim, propriedade de sua mãe, ao qual esta, às vezes, ia passear. “Nunca contemplei nada mais belo.”, disse a garota, “Gostaria muito de ir lá.” A ama tomou-a pela mão e a levou ao jardim. Uma vez neste, ela se afastou um puco e se sentou à sombra de uma faia para dormir, deixando Biancabella a brincar. Encantada com aquele lugar delicioso, a menina ia para lá e para cá, colhendo flores. Quando se cansou, se sentou debaixo de uma árvore. Mal havia se instalado quando uma pequena cobra se aproximou dela . Biancabella sentiu muito medo e estava a ponto de gritar, quando o animal lhe disse:

“Por favor, cale-se, não se mexa e não tenha medo, pois sou a sua irmã gêmea, nascida ao mesmo tempo que você. Chamo-me Samaritana. Se me obedecer, eu a farei feliz. Caso contrário, será a mulher mais desafortunada que jamais houve no mundo. Vá, portanto, sem temor e, amanhã, traga ao jardim duas cabaças cheias, uma de leite puro, e a outra de água de rosas. Depois venha ao meu encontro sem companhia alguma.” E a cobrinha se foi. A menina se levantou, foi para perto da ama, que ainda adormecia, a despertou e regressou para casa sem lhe falar de nada.

Biancabella and the Snake, de Nicole N. ClimonsNo dia seguinte, quando estava sozinha no quarto com a mãe, esta a achou um pouco melancólica. “O que tem, Biancabella?”, perguntou-lhe, “De alegre e feliz, parece que ficou tristonha.” “É que eu gostaria,” respondeu a criança, “que levassem duas cabaças ao jardim: uma cheia de leite e outra de água de rosas.” “E se atormenta por tão pouco, minha querida filha? Não sabe que tudo aqui lhe pertence?” disse-lhe a mãe. Por ordem sua, duas lindíssimas e grandes vasilhas de leite e de água de rosas foram, portanto, levadas ao jardim. Na hora adequada, Biancabella lá foi sozinha, como havia combinado com a pequena cobra. De pronto, a cobrinha apareceu. Ordenou que se despisse e que entrasse nua no leite. Molhou-a dos pés à cabeça no líquido e lambeu-a em todos os lugares onde ela podia ter algum defeito. Depois, a fez sair do leite e mergulhar na água de rosas que lhe deu um dos mais agradáveis perfumes. Em seguida, a pequena cobra voltou a vesti-la, recomendando-lhe, expressamente, que ficasse calada e que não revelasse o que havia acabado de acontecer a ninguém, ainda que fosse o seu pai ou a sua mãe, porque a cobrinha não queria que nenhuma mulher se lhe igualasse em beleza e refinamento. Enfim, após dotá-la de inúmeras virtudes, deixou-a ir.

Biancabella saiu do jardim e voltou para casa. Sua mãe, ao vê-la tão linda e graciosa, que os seus encantos superavam os de todas as outras jovens, ficou pensativa, pois não sabia o que dizer. Acabou, entretanto, por lhe perguntar como havia feito para ficar tão bonita. Biancabella respondeu que não sabia. A rainha pegou, então, um pequeno pente para pentear os louros cabelos da filha e, de repente, pérolas e pedras preciosas lhe caíram da cabeça. E quando a criança lavou as mãos, delas saíram rosas, violetas e outras sorridentes flores multicoloridas, que cheiravam tão bem que parecia que se estava no paraíso terrestre. Ao ver isso, a sua mãe correu até Lamberico, seu marido: “Senhor,” disse-lhe ela com a alegria de uma mãe realizada, “temos a mais amável, a mais linda e mais graciosa filha que a natureza jamais fez. Pois, além dos encantos  divinos que aparecem com clareza nela, caem dos seus cabelos pérolas, diamantes, cem pedras preciosas. Es das suas mãos brancas, oh maravilha!, saem rosas, violetas, flores de todas as espécies com perfumes muito suaves. Nunca acreditaria, se não visse com os meus próprios olhos.

O marido, incrédulo por natureza e que não dava, com muita facilidade, crédito ao que a esposa falava, a censurou. Mas como ela o instava a que a filha o visitasse, quis ver do que se tratava. Tendo, portanto, mandado a filha vir, constatou que a realidade superava as palavras da sua mulher. Ficou tão feliz que adquiriu a firme convicção de que nenhum homem no mundo era digno de casar-se com ela.”

Eaí, o que vocês tão achando? Espero que aguardem ansiosos pela próxima parte!

Laís

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5 comentários sobre “Biancabella e a Cobra, de Giovanni Straparola: Parte I

  1. Pingback: Biancabella e a Cobra, de Giovanni Straparola: Parte II | Fairytale Land Stories

  2. Pingback: Biancabella e a Cobra, de Giovanni Straparola: Parte III | Fairytale Land Stories

  3. Pingback: A Donzela Sem Mãos, dos Irmãos Grimm | Fairytale Land Stories

  4. Estou gostando muito!!
    Oh Deus, não consigo mais parar de falar desse blog, que as pessoas já até estão se cansando rsrsrsrsrsrsrs Não consigo fazer outra coisa senão vir até aqui! Ashuas Porque é que este blog não esta abarrotado de leitores? O que é que as pessoas andam fazendo? (Risos)

    • HAHAHA Aaaaaah, que bom que tu tá gostando! ❤ A gente fica muito feliz, mesmo mesmo. Quanto aos leitores, é mais ou menos o lance do "é melhor qualidade do que quantidade". Os que temos são os melhores do mundo. E tu tá incluída, agora. Beijo, linda!

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