A história de Giselle

kirov ballet, giselleGiselle é um dos meus repertórios favoritos. Gosto da história, da coreografia e especialmente da leveza e emoção que carrega o
segundo ato do ballet.

Resolvi transcrever para vocês a história que é contada no livro Contos do Balé, de Inês Bogéa. Espero que gostem tanto quanto eu!

“Faz muito tempo que perdi o meu amor. Ela morava com a mãe, numa vila distante de uma cidade alemã. A casa dela ficava perto de colinas forradas de vinhedos; não era mais que uma choupana, semioculta pelas parreiras carregadas de uvas e flores. 

Giselle tinha duas paixões: a dança e… eu.

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Todas as manhãs, quando os aldeões despertavam, o camponês Hilarion, que também era apaixonado por ela, rodeava sua casa. Não gostava da minha concorrência. Por isso, estava sempre de olho em tudo que eu fazia.

Certo dia, ele viu o escudeiro Wilfrid sair da minha casa, me fazendo reverências. Hilarion ficou matutando como um rapaz que morava aqui na vila podia ter tanto prestígio, pois naquela época só um nobre seria tratado assim. E nobres só se casavam entre si.

De minha parte, também ia sempre à casa de Giselle, logo que acordava. Naquele dia, ela estava estranha, preocupada com o pesadelo que tivera. Sonhara que uma linda moça tinha se casado comigo, vestido de príncipe. Fiz mil juras de amor, e Giselle aos poucos se alegrou.

A tarde se aproximava, já estava na hora da colheira, quando ouvi o som das trompas, anunciando a caçada dos nobres. Para não encontrá-los, fui rapidamente para o campo, em busca de outras paisagens e companhias. Mal sabia eu que isso era exatamente o que Hilarion desejava, para poder espionar minha choupana.

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Na caçada, estavam o príncipe da Curlândia, sua filha Bathilde e vários outros nobres. Quando o príncipe resolveu parar na aldeia, Giselle e sua mãe fizeram as honras de praxe e eles puderam descansar.

Só voltei à vila ao anoitecer, para a festa da colheita. Giselle se juntou a nós, e foi eleita a rainha da estação. Estávamos os dois muito alegres, até que Hilarion me denunciou:

– Loys é um duque disfarçado de plebeu! – e mostrou a espada e o manto que encontrara na minha choupana.

O príncipe e Bathilde ficaram espantados ao me ver: o duque da Silésia, Loys Albrecht, naqueles trajes?

Giselle reconheceu Bathilde como a moça do seu pesadelo: era realidade. Os pés dela estremeceram e começaram a se mover,coja01 numa dança desesperada. Ela me arrancou a espada. Tentei impedi-la, mas era tarde.

Sem saber mais o que se passava ao redor, fui levado por meu fiel escudeiro Wilfrid para casa, junto com os nobres.

No dia seguinte, Giselle foi enterrada à beira da lagoa, aos pés de um cipreste.

Algum tempo depois, Hilarion e os amigos dele caçavam na mata, à meia-noite. Das folhas da relva e dos caniços surgiram fogos-gátuos, assustando a todos. Então eles se lembraram da lenda das Willis: donzelas que morreram antes do casamento e não puderam repousar em paz. Em seus corações sobrevive a paixão pela dança. À meia-noite levantam-se, juntam-se em bandos pelas estradas e procuram jovens para seus pares. São incansáveis e obrigam seus parceiros a dançar até caírem mortos.

Amedrontados, Hilarion e os outros tentaram fugir. Mas era tarde. Os juncos se abriram à luz do luar, exalando um vapor que aos poucos se transformou numa moça muito franzina e linda: Myrtha, a rainha das Willis.

coja05A rainha anunciou a chegada de Giselle, que se ergueu ainda meio entorpecida. Recebeu na testa uma estrela brilhante e de seus ombros brotou um par de asas.

Nesta mesma noite, fui visitar o túmulo de Giselle, de quem jamais esqueci. Quando cheguei, os camponeses fugiram. Giselle voou em minha direção: tentei abraçá-la, mas ela sumia entre meus braços.

Hilarion foi cercado pelas Willis, que o passavam de mão em mão e o forçavam a tomar parte na dança. Até que, aos rodopios, ele foi empurrado para perto d’água. Tonto e exausto, tropeçou, caiu de cabeça e se afogou.

A rainha ordenou a Giselle que me enfeitiçasse. Para me defender, ela me atraiu à sua cova e fez sinal para que eu me agarrasse à cruz. Mas Myrtha percebeu e a obrigou a dançar seus passos mais fascinantes. Encantado, me afastei da cruz e caminhei na direção dela.

Imediatamente fomos cercados pelas Willis. Quase não podia aguentar o cansaço. Mas cada vez que eu tropeçava, Giselle se fazia passar por mim e dançava no meu lugar. Fez isso até a aurora raiar, quando as Willis partem.

Foi a última vez que vi o meu amor. Salvo por ela, vivo perdido.

Ou melhor: vivo perdido no mundo, para sempre com ela dentro de mim.”

kirov Giselle, alina C.(1)

Dois vídeos da montagem para os palcos, pra quem quiser ver:

1 ato:

2 ato:

Vocês podem fazer o download aqui.

Recomendo essa versão (Royal Ballet), mas se quiserem com outra companhia, existem milhares nesse mesmo site!

Alícia

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6 comentários sobre “A história de Giselle

  1. Pingback: O ballet Cinderela | Fairytale Land Stories

  2. Que linda a história…gostei muito… ao ler me lembrei do artigo sobre a dança da morte, que pessoas dançavam até morrer de maneira hipnotizada… acho que deve haver mais contos que ilustram esse fenômeno…

    • Oie, Susana! A Alícia, que fez esse post, e nossa bailarina oficial do blog, decidiu tomar outros caminhos. Porém, vou catar esses contos e tentar postar aqui, ok? Beijo e muito obrigada pelo comentário!

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