Os Olhos da Velha, de Kate Morton

Há muito tempo eu li um livro chamado O Jardim Secreto de Eliza. O livro é fantástico e eu pretendo fazer outro post logo mais sobre ele para vocês!

Mas o que eu queria mesmo mostrar agora é um dos contos presentes no livro (que muito me encantou quando o li pela primeira vez). O conto se chama Os Olhos da Velha, é um pouquinho longo, mas vale apena cada pedacinho. Espero que gostem!

“Era uma vez, numa terra que ficava muito além do mar luminoso, uma princesa que não sabia que era princesa, pois, quando era muito pequena, seu reino tinha sido invadido e sua família real, assassinada. Acontece que a princesinha, neste dia, estava brincando do lado de fora dos muros do castelo e só soube do ataque quando a noite começou a cair na terra e ela voltou e encontrou sua casa em ruínas. A princesinha vagou sozinha por algum tempo, até chegar a um chalé na beira de uma floresta escura. Quando bateu à porta, o céu, enraivecido com a destruição que tinha testemunhado, despejou sobre a terra uma tempestade violenta.

Dentro do chalé, morava uma velha cega que ficou com pena da menina e resolveu abrigá-la e criá-la como se fosse sua filha. Havia muito trabalho a ser feito no chalé da velha, mas a princesa na reclamou, porque ela era uma princesa de verdade, com um coração puro. As pessoas mais felizes são aquelas que têm trabalho para fazer, pois suas mentes se mantêm ocupadas, sem tempo para tristezas. Então a princesa cresceu feliz. Amava as estações do ano e gostava de semear e de cuidar das plantações. E, embora tivesse se transformado numa linda moça,  a princesa não sabia disso, porque a velha não tinha nem espelho nem vaidade e, portanto, a princesa não tinha aprendido nada a respeito de uma nem de outra.

Uma noite, no décimo sexto aniversário da princesa, ela e a velha estavam sentadas à cozinha, jantando.

– O que aconteceu com seus olhos, querida velha? – Perguntou a princesa, que havia muito tempo refletia sobre isso.

A velha virou-se para a princesa, com a pele enrugada onde seus olhos deveriam estar.

– Minha vista me foi tirada.

– Por quem?

– Quando eu era uma jovem donzela, meu pai me amava tanto, que tirou meus olhos para que eu nunca contemplasse morte e destruição no mundo.

– Mas, querida velha, você também não pode contemplar a beleza – disse a princesa, pensando no prazer que sentia ao contemplar seu jardim em flor.

– Não – disse a velha. – E eu gostaria muito de ver você, minha Bela, crescer.

– Não podemos procurar os seus olhos em algum lugar?

– A velha sorriu tristemente.

– Meus olhos deveriam ter sido trazidos por um mensageiro quando eu fizesse sessenta anos, mas, na noite em questão, minha Bela, ele chegou junto com uma violenta tempestade e eu não pude encontrá-lo.

– Podemos ir procurá-lo agora?

A velha sacudiu a cabeça.

– O mensageiro não pôde esperar, e meus olhos foram levados para o poço profundo que fica na terra das coisas perdidas.

– Não podemos ir até lá?

– Infelizmente – disse a velha -, isso fica muito longe e o caminho é cheio de perigos e privações.

Aos poucos, com o passar das estações, a velha foi ficando mais fraca e pálida. Um dia, quando a princesa estava a caminho do pomar para colher maçãs para o inverno, ela encontrou a velha, sentada no tronco da macieira, se lamentando. A princesa parou, espantada, pois nunca havia visto a velha aborrecida. Parando para escutar, percebeu que a velha estava falando com um solene pássaro cinzento e branco, com a cauda colorida:

– Meus olhos, meus olhos – disse. – Meu fim está chegando e minha visão jamais será restaurada. Diga-me, sábio pássaro, como vou achar meu caminho no outro mundo se não posso enxergar?

Rápida e silenciosamente, a princesa retornou ao chalé, pois sabia o que tinha que fazer. A velha tinha sacrificado os olhos para abrigar a princesa e agora esta bondade tinha que ser retribuída. Embora nunca tivesse ido além da beira da floresta, a princesa não hesitou. Seu amor pela velha era maior do que uma montanha formada por todos os grãos de areia do mar.

A princesa acordou bem cedinho e se embrenhou na floresta, só parando ao chegar à costa do mar. Lá ela embarcou, atravessando o vasto oceano em busca da terra das coisas perdidas.

O caminho era longo e difícil, e a princesa ficou perplexa, porque a floresta da terra das coisas perdidas era muito diferente da floresta que conhecia. As árvores eram cruéis e retorcidas, os animais, medonhos, até os cantos dos pássaros faziam a princesa tremer. Quanto mais se assustava, mais depressa corria, até que finalmente parou, com o coração martelando em seu peito. A princesa estava perdida e não sabia para onde ir. Já estava se desesperando, quando o solene pássaro cinzento e branco apareceu na frente dela.

– Fui enviado pela velha – disse o pássaro -, para levá-la a salvo até o poço das coisas perdidas, onde você encontrará o seu destino.

A princesa ficou muito aliviada e seguiu o pássaro, com o estômago roncando, porque ainda não encontrara comida naquela terra estranha. Algum tempo depois, viu uma velha sentada num toco de árvore.

– Como vai você, minha Bela? – disse a velha.

– Estou com muita fome – disse a princesa -, mas não sei onde encontrar comida.

A velha apontou para a floresta e, de repente, a princesa viu que havia frutinhas nas árvores e pencas de nozes nas pontas dos galhos.

– Ah, obrigada, gentil senhora – disse a princesa.

– Eu não fiz nada – disse a velha -, só abri seus olhos e mostrei o que você sabia que estava lá.

A princesa continuou andando atrás do pássaro, mais satisfeita agora, mas com o tempo começou a mudar e o vento esfriou.

Passado algum tempo, a princesa encontrou outra velha sentada num toco de árvores.

– Como vai você, minha Bela?

– Estou com muito frio, mas não sei onde encontrar roupas quentes.

A velha apontou para a floresta, e, de repente, a princesa viu uma moita de roseiras silvestres com pétalas macias e delicadas. Ela se cobriu com uma delas e ficou bem aquecida.

– Ah, obrigada, gentil senhora – disse a princesa.

– Eu não fiz nada – disse a velha -, só abri seus olhos e mostrei o que você sabia que estava lá.

A princesa continuou andando atrás do pássaro, mais satisfeita agora e mais aquecida do que antes, mas seus pés começaram a doer porque já tinha andado muito.

Passado algum tempo, a princesa encontrou uma terceira velha sentada num toco de árvores.

– Como vai você, minha Bela?

– Estou tão cansada, mas não sei onde encontrar uma carruagem.

A velha apontou para a floresta e, de repente, numa clareira, a princesa viu um cervo marrom com uma argola dourada em volta do pescoço. O cervo piscou o olho para a princesa, um olho escuro e pensativo, e a princesa, que era bondosa, estendeu a mão. O cervo se aproximou e abaixou a cabeça, para que ela pudesse subir em suas costas.

– Ah, obrigada, gentil senhora – disse a princesa.

– Eu não fiz nada – disse a velha -, só abri seus olhos e mostrei o que você sabia que estava lá.

A princesa e o cervo seguiram o pássaro cinzento e branco cada vez mais para dentro da floresta escura e, com o passar dos dias, a princesa começou a entender a linguagem delicada do cervo. Enquanto conversavam, noite após noite, a princesa descobriu que o cervo estava fugindo de um caçador traiçoeiro, que tinha sido enviado por uma bruxa má para matá-lo. A princesa estava tão grata ao cervo por sua gentileza, que resolveu mantê-lo a salvo dos seus perseguidores.

Mas o caminho para a desgraça está coberto de boas intenções, e, bem cedo na manhã seguinte, a princesa acordou e viu que o cervo não estava no lugar de sempre, perto do fogo. Na árvore ao lado, o pássaro cinzento e branco agitava-se, e a princesa se levantou depressa, para segui-lo. Ao se embrenhar no bosque, a princesa ouviu o cervo chorando. Correu para junto dele e viu que havia uma flecha enfiada em seu flanco.

– A bruxa me encontrou – disse o cervo -, enquanto eu colhia nozes para a nossa viagem, ela ordenou que os arqueiros atirassem em mim. Eu corri o mais depressa que pude, mas, quando cheguei aqui, não consegui correr mais.

A princesa se ajoelhou ao lado do cervo e ficou tão angustiada com o seu sofrimento, que começou a chorar sobre seu corpo, e a sinceridade e a luz de suas lágrimas cicatrizaram sua ferida.

Nos dias seguintes, a princesa cuidou do cervo, e, quando a saúde dele foi restaurada, eles prosseguiram sua viagem em direção à beira da vasta floresta. Quando saíram finalmente do meio das árvores, avistaram a costa e o mar luminoso.

– Um pouco mais ao norte – disse o pássaro -, fica o poço das coisas perdidas.

O dia terminara e a noite caía, mas as pedrinhas na praia brilhavam como prata ao luar, indicando o caminho. Eles caminharam para o norte até que, finalmente, no topo de uma rocha negra, avistaram o poço das coisas perdidas. O pássaro cinzento e branco deu-lhes adeus e saiu voando, tendo cumprido o seu dever.

Quando a princesa e o cervo chegaram ao poço, a princesa se virou para acariciar o pescoço de seu nobre companheiro.

– Você não pode descer até o fundo do poço comigo, querido cervo – ela disse -, pois tenho que fazer isso sozinha. – E, lançando mão de toda a coragem que tinha descoberto ter durante a viagem, a princesa pulou para dentro do poço e caiu na direção do fundo.

A princesa mergulhou em sonos e sonhos até se ver caminhando num campo em que o sol fazia a grama brilhar e as árvores cantarem.

De repente, apareceu uma bela fada, com cabelos compridos e ondulados que brilhavam como fios de ouro e um sorriso radiante no rosto. A princesa se acalmou imediatamente.

– Você veio de muito longe, viajante cansada – disse a fada.

– Eu vim buscar os olhos de uma amiga querida. Você viu os olhos a que me refiro, linda fada?

Sem uma palavra, a fada abriu a mão e, lá dentro, estavam os lindos olhos de uma donzela que não tinha visto nenhum mal no mundo.

– Pode levá-los – disse a fada -, mas sua velha jamais irá usá-los.

E, antes que a princesa pudesse perguntar o que a fada queria dizer com isso, ela acordou e viu que estava deitada ao lado do seu querido cervo na abertura do poço. Em suas mãos, havia um pequeno embrulho com os olhos da velha.

Durante três meses, os viajantes percorreram a terra das coisas perdidas e atravessaram o profundo mar azul, retornando à terra da princesa. Quando se aproximaram do chalé da velha, na beira da floresta escura, um caçador os fez parar e confirmou a profecia da fada. Enquanto a princesa viajava pela terra das coisas perdidas, a velha tinha ido tranquilamente para o outro mundo.

Ao ouvir isso, a princesa começou a chorar, pois sua longa viagem tinha sido em vão, mas o cervo, que era tão sábio quanto bondoso, disse à Bela que enxugasse as lágrimas.

– Não tem importância, porque ela não precisou dos olhos para saber quem era. Ela soube disso através do seu amor por ela.

E a princesa ficou tão grata ao cervo, que estendeu a mão e acariciou seu rosto. Nesse instante, o cervo se transformou num belo príncipe, e sua argola dourada se transformou numa coroa. Ele contou à princesa que uma bruxa má tinha lançado um feitiço contra ele, prendendo-o no corpo de um cervo até que uma bela donzela o amasse o suficiente para se apiedar dele.

Ele e a princesa se casaram e viveram felizes para sempre no chalé, com os olhos da velha velando por eles de um jarro pousado sobre a lareira.”

Alícia

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