Branca de Neve e Rosa Rubra, dos Grimm

Apesar do título, esse conto em nada tem a ver com a princesa dos sete anões, além de sua origem e “autores”- os dois são alemães, dos irmãos Grimm. Eu nunca havia escutado falar de sua história – sério! -, que conta sobre duas meninas encantadoras, a Branca de Neve e sua irmã Rosa Rubra, e de um certo urso, mas não posso falar muito mais dele pra não dar spoilers…

 

“Snow White and Rose Red”, de Adalbert A. Pich

“Snow White and Rose Red”, de Adalbert A. Pich

“Era uma vez uma pobre viúva que vivia em uma solitária casa. Na frente de sua casa, havia um jardim onde estavam duas roseiras, uma delas deu rosas brancas e a outra, vermelhas. Ela tinha duas filhas que eram como as duas roseiras, uma era chamada Branca de Neve e a outra Rosa Rubra. Elas eram tanto boas e felizes, quanto atarefadas e animadas, assim como duas crianças sempre foram no mundo, só Branca de Neve que era mais calma e gentil que Rosa Rubra. Rosa Rubra gostava mais de correr nos prados e campos procurando flores e caçando borboletas; Branca de Neve se sentava em casa com sua mãe e a ajudava com seu trabalho doméstico, ou lia para ela quando não tinha nada para fazer.

Nenhum contratempo as surpreendia; se elas tivessem ficado até muito tarde na floresta, e a noite viesse, elas se deitavam uma ao lado da outra sobre o musgo e dormiam até vir a manhã. Sua mãe sabia disso e não se afligia por conta delas. Uma vez, quando elas passaram a noite no bosque e a alvorada as despertou, elas viram um lindo menininho num brilhante vestido branco sentado próximo à sua cama. Ele se levantou e parecia bastante gentil, mas não disse nada e partiu floresta adentro. E, quando elas olharam em volta, notaram que haviam dormido muito próximas a um precipício e certamente teriam caído em sua escuridão se tivessem ido apenas alguns passos à frente. E sua mãe disse-lhes que o pequeno garoto devia ser um anjo que assistia as boas crianças.

Branca de Neve e Rosa Rubra mantinham a casinha de sua mãe com tanto esmero que era um prazer olhar para dentro dela. No verão, Rosa Rubra cuidava da casa e toda manhã preparava, com flores de cada uma das roseiras, uma tiara junto à cama de sua mãe antes que ela acordasse. No inverno, Branca de Neve acendia o fogo e pendurava a chaleira sobre a lareira. A chaleira era de cobre, mas brilhava como ouro, tão brilhante quando polida. À noite, quando os flocos de neve caíam, a mãe dizia ‘Vá, Branca de Neve, e tranque a porta’, e então elas sentavam-se próximas à lareira, e a mãe colocava seus óculos e lia em voz alta um grande livro enquanto as duas meninas ouviam.

Perto delas, deitava-se um cordeirinho sobre o chão e, atrás delas, sobre um poleiro, estava uma pomba branca com sua cabeça escondida sob as asas. Uma noite, enquanto elas se sentavam confortavelmente juntas, alguém bateu à porta como se quisesse entrar. A mãe disse ‘Rápido, Rosa Rubra, abra a porta, deve ser algum viajante procurando abrigo.’ Rosa Rubra se dirigiu até à porta e puxou o trinco, pensando que o visitante era um pobre homem, mas estava errada; quem a esperava do outro lado era um urso que esticou sua enorme e negra cabeça porta adentro. Rosa Rubra gritou e saltou de volta, o cordeiro baliu, a pomba voejou agitadamente, e Branca de Neve se escondeu atrás da cama de sua mãe. Mas, o urso disse ‘Não se assustem, eu não farei nenhum mal a vocês! Estou congelando e só quero me esquentar junto a vocês.’

‘Pobre urso,’ disse a mãe, ‘deite-se perto do fogo, só não vá se queimar.’ Depois disso, exclamou, ‘Branca de Neve, Rosa Rubra, não precisam mais se esconder, o urso não machucará ninguém.’ Então, as duas saíram de seus esconderijos e, aos poucos, o cordeiro e a pomba se aproximaram, e não tiveram medo dele. O urso falou ‘Aqui, crianças, tirem um pouco da neve de cima do meu pelo;’ e elas trouxeram a vassoura para limpá-lo; e ele esticou-se junto ao fogo rosnando de contentamento. Não demorou para que elas crescessem em casa, brincando com seu desajeitado convidado. As duas puxavam seu cabelo, colocavam seus pés na frente dele para que o mesmo caísse, ou batiam nele, e quando o urso rosnava, elas riam. Mas, o animal lidava bem com isso, apenas quando elas iam longe demais ele pedia.

 ‘Deixem-me vivo, crianças,

Branquinha de neve, Rosinha Rubra,

Irão vocês bater em quem lhes ama até a morte?’

Quando era hora de dormir e os outros iam para a cama, a mãe dizia ao urso ‘Você pode se deitar perto da lareira, pra ficar a salvo do frio e do mau tempo.’ Assim que o dia amanhecia, as duas crianças o deixavam sair e ele seguia a trote pela neve na floresta. Doravante, o urso voltava toda noite sempre na mesma hora, estendia-se junto à lareira, e deixava as crianças se entreterem com ele o tanto que quisessem; e elas se acostumaram tanto com ele que as portas nunca eram fechadas até que seu negro amigo chegasse.

Quando a primavera chegou e tudo lá fora estava verde, o urso disse numa manhã à Branca de Neve ‘Agora eu devo ir embora, e não poderei voltar para todo o verão.’ – ‘Aonde você está indo, então, querido urso?’ perguntou Branca de Neve, ‘Eu devo ir para a floresta e proteger meus tesouros dos perversos anões. No inverno, quando a terra está fortemente gelada, eles são obrigados a ficar em suas casas, debaixo da terra, e não podem fazer seu trabalho; mas agora, quando o sol descongelou e esquentou a terra, eles voltam à superfície, e vem para bisbilhotar e roubar; e o que uma vez chega às suas mãos, e em suas cavernas, não vê tão facilmente a luz do dia de novo.’ Branca de neve ficou bastante pesarosa por sua ida, e assim que ela destrancou a porta para ele, e o urso precipitou-se para fora, ele esbarrou na tranca e um pedaço de seu peludo casaco foi arrancado, e Branca de Neve pensou ter visto algo como ouro brilhando através dele, mas ela não estava certa sobre aquilo. O urso correu rapidamente, e logo estava já fora de vista, atrás dar árvores.

Pouco tempo depois a mãe enviou suas filhas para a floresta para pegar lenha. Lá elas encontraram uma grande árvore que havia caído, e junto ao tronco algo estava pulando para frente e pra trás na grama, mas elas não tinham ideia do que era aquilo. Quando elas chegaram mais perto viram um anão de rosto murcho e envelhecido e uma barba branca  de um metro de comprimento. O fim da barba estava preso numa fenda na árvore, e o pequeno pulava pra frente e pra trás como um cachorro amarrado a uma corda, e não sabia o que fazer. Ele fitou as garotas com seus olhos vermelho ardentes e chorou, ‘Por que vocês ficam aí paradas? Por que não vem até aqui e me ajudam?’ – ‘O que  você está fazendo aí, homenzinho?’ perguntou Rosa Rubra. ‘Sua estúpida, curiosa gansinha!’ respondeu o anão; ‘Eu estava indo cortar a árvore para conseguir um pouco de madeira para cozinhar. O pouco de comida que um de nós quer é queimado diretamente nas grossas toras de lenha; nós não devoramos como vocês, grossa e gananciosa gente. Eu estava apenas usando a cunha seguramente nela, e tudo estava indo conforme eu gostaria; mas a miserável da madeira macia e de repente caiu em pedaços, e a árvore veio abaixo tão rápido que eu não tive tempo de tirar minha linda barba branca de seu caminho; então agora ela está presa e eu não posso ir embora, e as duas bobas com cara de leite estão rindo de mim! Ugh! Vocês são tão odiosas!’

As crianças tentaram muito, mas não conseguiram puxar a barba, que estava fortemente presa. ‘Eu vou correndo procurar alguém pra nos ajudar’, disse Rosa Rubra. ‘Sua gansinha sem bom senso!’ rosnou o anão; ‘Por que você deveria procurar alguém? Vocês já são demais pra mim; vocês não podem pensar em nada melhor?’ – ‘Não seja impaciente,’ disse Branca de Neve, ‘Eu vou ajudá-lo,’ e ela tirou suas tesouras de dentro do bolso, e cortou a barba.

Assim que o anão sentiu-se livre, pegou uma bolsa que estava presa entre as raízes da árvore e cheia de ouro, e levantou-a, resmungando para si mesmo, ‘Gente rude, cortaram um pedaço da minha linda barba. Má sorte pra vocês!’ e então ele jogou a bolsa nas costas e foi embora sem ao menos olhar para as meninas.

Algum tempo depois disso, Branca de Neve e Rosa Rubra foram pescar. Ao chegarem perto do riacho, elas viram algo como um grande gafanhoto pulando na direção água, como se ele fosse se fosse mergulhar. Elas correram até ele e notaram que era o anão. ‘Onde você está indo?’ disse Rosa Rubra; ‘você tem certeza de que vai entrar na água?’ – ‘Eu não sou tão tonto assim!’ exclamou o anão; ‘você não vê que aquele detestável peixe está tentando me puxar?’ O homenzinho estava sentado pescando e desafortunadamente o vento o enrolou sua barba no anzol; só então o peixe foi fisgado, e a fraca criatura não tinha força para puxa-lo; o peixe manteve a vantagem e puxou o anão em sua direção. Ele se segurou em tudo que tinha ao seu alcance mas nada funcionou: foi forçado a seguir os movimentos do peixe, e corria perigo de ser arrastado pra água.

As meninas chegaram na hora certa; elas o agarraram rapidamente e tentaram desprender sua barba do anzol, mas tudo foi em vão: os dois estavam muito entrelaçados. Não havia mais nada a se fazer além de tentar corta-la de novo, e com isso só uma pequena parte dela foi perdida. Quando o anão viu aquilo, gritou, ‘Seria isso civilizado, seus monstrinhos, desfigurar a cara de alguém? Não foi o suficiente cortar o fim da minha barba? Agora vocês têm de cortar sua melhor parte! Eu não posso mais deixar que meu povo me veja. Espero que vocês sejam obrigadas a correr até que arruínem a sola de seus sapatos!’ Então ele pegou um saco de pérolas que estava próximo a beira do riacho, e sem dizer mais nada, ele foi embora o arrastando e desapareceu atrás de uma pedra.

Aconteceu que, logo depois, a mãe enviou as duas filhas à cidade para comprar linhas e agulhas, e laços e fitas. A estrada levou-as por uma charneca em que enormes pedaços de rocha jaziam espalhados aqui e ali. Logo elas notaram um grande pássaro pairando no ar, voando lentamente e girando acima delas, que mergulhou mais e mais, e finalmente pousou próximo a uma rocha não muito longe. Em seguida ouviram um alto, comovente grito. Elas correram e viram com horror que uma águia capturara seu velho conhecido, o anão, e estava levando-o embora. As crianças, cheias de piedade, agarraram o pequeno, e o puxaram da águia por tanto tempo que a ave foi obrigada a largar sua presa. Assim que o anão se recuperou do susto gritou com sua voz estridente ‘Você não podia ter feito isso com mais cuidado?! Vocês puxaram meu casaco marrom e agora ele está todo rasgado e cheio de buracos, suas criaturas desajeitadas sem rumo!’ Então ele pegou um saco cheio de pedras preciosas, e fugiu novamente sob a rocha em sua caverna subterrânea. As garotas, já acostumadas à sua ingratidão, seguiram seu caminho rumo a cidade.

Quando elas cruzaram a charneca novamente a caminho de casa surpreenderam o anão, que havia esvaziado seu saco de pedras preciosas em um local limpo, e não pensava que alguém passaria por lá àquela hora. O sol da tarde brilhava sobre as pedras brilhantes; elas cintilavam com todas as cores de forma tão bela que as crianças pararam para observá-las. ‘Por que vocês estão aí de boca aberta?’ gritou o anão, e seu rosto pálido cinza-acobreado ficou vermelho de raiva.

Ele estava já xingando alto quando um alto rosnar se fez ouvir, e um urso negro veio trotando de fora da floresta na direção deles. O anão se assustou, mas ele não poderia chegar a sua caverna a tempo, pois o urso já estava bem perto. Em seguida, com o coração cheio de temor, ele gritou, ‘Querido Senhor Urso, poupe-me, e eu lhe darei todos os meus tesouros! Olhe as belas joias ali no chão, conceda-me a vida e você as terá! Ora, o que você vai querer com um sujeito pequeno como eu? Mal me sentiria entre seus dentes! Venha, tome estas duas meninas más, elas serão um bocado macias para você, como jovens codornas; tenha misericórdia, coma-as!’

O urso não deu ouvido às suas palavras, mas deu a criatura ímpios golpes com a pata, até ele não mais se mover. As meninas tinham fugido, mas o urso as chamou, ‘Branca de Neve e Rosa Rubra, não tenham medo; espere, eu vou com vocês.’ Então elas reconheceram sua voz e esperaram, e quando ele veio até elas sua pele de urso caiu, e em seu lugar surgiu um homem bonito, vestido com roupas douradas. ‘Eu sou o filho de um rei’, ele disse, ‘e estava enfeitiçado por aquele anão perverso, que tinha roubado meus tesouros; fui fadado a viver na floresta como um urso selvagem até ser liberto por sua morte. Agora ele teve o castigo que merecia.’

Branca de Neve se casou com o príncipe, e Rosa Rubra, com seu irmão, e eles repartiram entre si o grande tesouro que o anão havia reunido em sua caverna. A velha mãe viveu em paz e feliz com seus filhos durante muitos anos. Ela levou as duas roseiras com ela, que foram colocadas diante da janela de seu quarto, e todos os anos floresciam as mais belas rosas, brancas e vermelhas.”

Não sei quanto a vocês, mas eu particularmente peguei um abuso desse anão… Deve ser um dos personagens mais chatos de todos! Ah é!, antes que eu me esqueça, queria me desculpar por estar em falta com o blog, ando avoada e cansada demais pra me concentrar em escrever posts, mas isso já já passa. (Dedicando esse conto à Laís!)

Emily

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2 comentários sobre “Branca de Neve e Rosa Rubra, dos Grimm

  1. Branca de Neve é o nome de um personagem recorrente do folclore alemão, a mais famosa é realmente a que vive com anões, mas existem muitas outras.
    Alguns dizem que essa história tenha sofrido um erro de tradução no título.

    • Que legal!! Não sabia disso, vou procurar mais sobre 😀
      Você sabe dizer que outras traduções dão pro título, além desse que dizem estar ~errado? Eu não pesquisei qual era o nome original…

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