Árvore de Ouro e Árvore de Prata, de Joseph Jacobs

Esses dias eu comprei um livro chamado Princesas e Damas Encantadas. É uma coletânea de contos celtas, do autor Joseph Jacobs, que tem como protagonistas princesas e damas encantadas. O livro é uma graça e eu decidi compartilhar com vocês o primeiro conto dele, que me lembrou bastante a Branca de Neve e logo vocês entenderão o porquê! Espero que gostem!

“Era uma vez um rei que tinha uma esposa, cujo nome era Árvore de Prata, e uma filha, cujo nome era Árvore de Ouro. Num certo dia, entre outros dias, Árvore de Ouro e Árvore de Prata foram a uma ravina em que havia uma fonte, e dentro da fonte havia uma truta.

Árvore de Prata disse:

–  Trutinha, minha pequena camarada, não sou a mais bela rainha do mundo?

– Oh! De verdade? Você não é não!

– Mas, quem é então?

– Ora, é Árvore de Ouro, sua filha.

Árvore de Prata foi para casa, cega de raiva.

Deitou-se na cama e jurou que nunca mais ficaria boa se não conseguisse comer o coração e o fígado de Árvore de Ouro, sua filha.

Ao cair da noite, o rei voltou para casa e disseram-lhe que Árvore de Prata, sua esposa, estava muito doente. Ele foi até onde ela estava e perguntou-lhe o que havia de errado com ela.

– Oh! É uma coisa que só você poderá curar, se quiser.

– Oh! De fato, não há nada que eu possa fazer por você que eu não faça.

– Se eu obtiver o coração e o figado de Árvore de Ouro, minha filha, para comer, ficarei boa de novo.

Aconteceu que nessa ocasião o filho de um grande rei veio do estrangeiro para pedir Árvore de Ouro em casamento. O rei concordou, e eles foram embora.

O rei, então, enviou seus rapazes à colina de caça para matarem um bode e ele deu o coração e o fígado do animal para a esposa comer. Então, ela ficou curada e saudável.

Um ano depois, Árvore de Prata foi à ravina onde ficava a fonte, dentro da qual vivia a truta.

– Trutinha, minha pequena camarada – disse ela -, não sou eu a mais bela rainha do mundo?

– Oh! De verdade? Você não é não!

– Mas, quem é então?

– Ora, é Árvore de Ouro, sua filha.

– Ora, mas faz muito tempo que ela morreu! Já faz um ano desde que eu comi o seu coração e o seu fígado.

– Bem, na verdade ela não está morta. Está casada com um grande príncipe estrangeiro.

Árvore de Prata foi para casa, implorou ao rei que mandasse preparar o navio real e disse:

– Vou visitar minha querida Árvore de Ouro, pois faz muito tempo que não a vejo.

O navio foi preparado e eles zarparam. A própria Árvore de Prata controlava o leme. Ela conduziu o navio tão bem que eles não levaram muito tempo para chegar.

O príncipe estava fora, caçando nas colinas.

Árvore de Ouro reconheceu o navio de seu pai.

– Oh! – disse ela aos criados – Minha mãe está chegando e quer me matar.

– Ela não vai matá-la não, nós vamos prender você num quarto onde ela não vai poder chegar perto de você.

Isso foi feito e, quando Árvore de Prata chegou à praia, começou a gritar:

– Venha encontrar-se com sua mãe, pois ela veio visitá-la.

Árvore de Ouro disse que não poderia ir ao seu encontro, pois estava trancada no quarto e não tinha como sair dali.

– Você não poderia colocar seu dedo mínimo para fora, pelo buraco da fechadura – disse Árvore de Prata -, para que sua mãe possa dar um beijo nele?

Árvore de Ouro colocou seu dedinho para fora. Árvore de Prata pegou uma estaca fina envenenada e espetou nele.

Árvore de Ouro caiu morta.

Quando o príncipe voltou para casa e encontrou Árvore de Ouro morta, ficou desolado. Quando deu-se conta do quanto era bonita, não a enterrou, mas trancou-a num quarto onde ninguém chegaria perto dela.

Algum tempo depois, ele se casou novamente e toda a casa ficou aos cuidados de sua esposa, com exceção daquele quarto. Ele mesmo cuidava dele e sempre guardava a chave em seu bolso. Um dia, ele esqueceu de levar a chave consigo e a segunda esposa entrou no quarto. E o que ela viu lá foi a mais bela mulher que já tinha visto.

Ela começou a virá-la e a tentar despertá-la, quando notou a estaca envenenada em seu dedo. Puxou-a e, então, Árvore de Ouro despertou. Estava viva e mais bela do que nunca.

Ao cair da noite, o príncipe voltou para casa, vindo da colina de caça, parecendo muito deprimido.

– Qual presente – disse sua mulher- você me daria se eu lhe fizesse sorrir?

– Oh! Na verdade, nada poderia me fazer sorrir, a não ser ver Árvore de Ouro viva novamente.

– Bem, você a encontrará viva ali no quarto.

Quando o príncipe viu Árvore de Ouro viva, rejubilou-se muito e começou a beijá-la e beijá-la e beijá-la. A segunda esposa disse:

– Como ela é a primeira que você teve, é melhor para você ficar com ela e eu ir embora.

– Oh! Na verdade, você não deve ir embora, pois pretendo ficar com as duas.

No fim do ano, Árvore de Prata foi à ravina onde se encontrava a fonte, na qual vivia a truta:

– Trutinha, minha pequena camarada – disse ela -, não sou eu a mais bela rainha do mundo?

– Oh! De verdade? Você não é não!

– Mas quem é então?

– Ora, é Árvore de Ouro, sua filha.

– Oh! Mas ela não está mais viva. Há um ano, eu espetei uma estaca envenenada em seu dedo.

– Oh! Para dizer a verdade, ela não está morta não.

Árvore de Prata foi para casa e pediu ao rei que preparasse o navio, pois queria visitar sua querida Árvore de Ouro, afinal, fazia muito tempo que não a via. O navio foi preparado, e eles zarparam. A própria Árvore de Prata estava no leme, e conduzia o navio tão bem que não levou muito tempo para eles chegarem.

O príncipe estava fora, caçando nas colinas.

Árvore de Ouro reconheceu o navio de seu pai se aproximando:

– Oh! – disse ela -, minha mãe está chegando e vai me matar.

– Não vai não – disse a segunda esposa -, vamos até lá para recebê-la.

Árvore de Prata desembarcou na praia.

– Venha aqui, Árvore de Ouro, meu amor – disse ela -, pois sua mãe veio visitá-la, trazendo-lhe uma bebida preciosa.

– É um costume neste país – disse a segunda esposa –  que a pessoa que oferece a bebida tome um gole dela primeiro.

Árvore de Prata encostou a boca na taça e a segunda esposa lhe deu um tranco para que uma porção do líquido descesse pela sua garganta. Ela, então, caiu morta. Só tiveram de levá-la para casa, já um cadáver, e enterrá-la.

O príncipe e suas duas esposas viveram muito tempo depois disso, felizes e em paz.

Deixei-os ali.”

Alícia.

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4 comentários sobre “Árvore de Ouro e Árvore de Prata, de Joseph Jacobs

  1. Eu amo essas versões diferentes, principalmente com detalhes interessantes: a mãe tinha mais ciúme e inveja da filha do que a segunda esposa da primeira! E essa bigamia numa boa também… achei demais!

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